Renato TerraGuestBernadeteGuest
Paula LavigneGuestDavi AlvesGuestPorque eu fu-- veja bem, eu fui tirado de meu apartamento, minha casa, minha vida.
Eu comecei a achar que eu sempre-- que a vida era aquilo ali, só aquilo, entendeu? Eu dormia e, e que a lembrança do apartamento, da, dos shows, da vida lá fora era uma, uma espécie de sonho que eu tinha tido.
Era muito pior do que uma tristeza.
Viver na pele a estupidez do arbítrio levou Caetano a um estado de espírito muito particular, que ele descreve em detalhes em seu livro de memórias Verdade Tropical, lançado trinta anos depois.
Por vezes, era como se o seu pensamento, sua emoção, até sua identidade, tivessem perdido a conexão com a realidade.
Pra lidar com aquilo, ele criou um sistema de sinais e superstições que era um certo tipo de loucura.
Coisas do tipo: se uma barata passar aqui agora, eu vou ser solto daqui três dias.
No meio desse turbilhão de incertezas e sandice, uma pessoa apareceu e fez algo que Caetano nunca mais esqueceu.
Ele contou essa história no livro e também em um documentário sobre sua prisão, chamado Narciso em Férias, que é de onde vêm os áudios que você acabou de ouvir.
Essa história aconteceu já na fase final do período de detenção, quando Caetano ficava sozinho em uma cela da Vila Militar, no Rio de Janeiro.
Nesse momento, o músico podia receber visitas uma vez na semana, mas à distância.
A esposa dele, Dedé, ia lá aos domingos, mas eles não podiam ter qualquer tipo de contato físico.
E ele ficava com pena de ver Dedé-- e como ele, o oficial do dia ficava lá em cima.
Se ele viesse descendo, o sargento que tava responsável pela cela, pe-pela entrada do, do quartel, via com bastante tempo, com bastante antecedência.
Então ele dizia assim: "Eu fico com muita pena de ver sua mulher vem aqui, você fica dentro e ela fica fora, e vocês não podem ficar sozinhos.
Quando ela vier, que eu tiver aqui, eu vou deixar-- eu vou abrir e eu fico tomando conta lá fora".
Depois de tanto tempo sem Dedé sequer ter notícias do Caetano, eles agora podiam se ver.
No relato, Caetano descreve o gesto como simples e pontual, mas algo que, nas palavras dele, o salvou.
Porque eu fu-- veja bem, eu fui tirado de meu apartamento, minha casa, minha vida.
Eu comecei a achar que eu sempre-- que a vida era aquilo ali, só aquilo, entendeu? Eu dormia e, e que a lembrança do apartamento, da, dos shows, da vida lá fora era uma, uma espécie de sonho que eu tinha tido.
Era muito pior do que uma tristeza.
Viver na pele a estupidez do arbítrio levou Caetano a um estado de espírito muito particular, que ele descreve em detalhes em seu livro de memórias Verdade Tropical, lançado trinta anos depois.
Por vezes, era como se o seu pensamento, sua emoção, até sua identidade, tivessem perdido a conexão com a realidade.
Pra lidar com aquilo, ele criou um sistema de sinais e superstições que era um certo tipo de loucura.
Coisas do tipo: se uma barata passar aqui agora, eu vou ser solto daqui três dias.
No meio desse turbilhão de incertezas e sandice, uma pessoa apareceu e fez algo que Caetano nunca mais esqueceu.
Ele contou essa história no livro e também em um documentário sobre sua prisão, chamado Narciso em Férias, que é de onde vêm os áudios que você acabou de ouvir.
Essa história aconteceu já na fase final do período de detenção, quando Caetano ficava sozinho em uma cela da Vila Militar, no Rio de Janeiro.
Nesse momento, o músico podia receber visitas uma vez na semana, mas à distância.
A esposa dele, Dedé, ia lá aos domingos, mas eles não podiam ter qualquer tipo de contato físico.
E ele ficava com pena de ver Dedé-- e como ele, o oficial do dia ficava lá em cima.
Se ele viesse descendo, o sargento que tava responsável pela cela, pe-pela entrada do, do quartel, via com bastante tempo, com bastante antecedência.
Então ele dizia assim: "Eu fico com muita pena de ver sua mulher vem aqui, você fica dentro e ela fica fora, e vocês não podem ficar sozinhos.
Quando ela vier, que eu tiver aqui, eu vou deixar-- eu vou abrir e eu fico tomando conta lá fora".
Depois de tanto tempo sem Dedé sequer ter notícias do Caetano, eles agora podiam se ver.
No relato, Caetano descreve o gesto como simples e pontual, mas algo que, nas palavras dele, o salvou.
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